Esse final de semana estarei emn São Paulo para esse evento no MIS.
Às 15h, um bate-papo reúne curadores e curadores-convidados do núcleo Espaço em Movimento da mostra I/Legítimo: dentro e fora do circuito.
Convidado especial do projeto, o artista francês M.CHAT.VUILLE - cuja marca registrada é um gato amarelo e sorridente gravado em paredes de diferentes cidades do mundo - irá fazer uma apresentação de seu trabalho.
Em seguida, às 17h, exibe-se os filmes Final Flare e Yeah Right! dirigidos por Spike Jonze.
Curadores: Fernando Oliva e Priscila Arantes
Curadores-convidados: Ronaldo Lemos, Fabiana Faleiros e Marcos Mello
Posted: January 6th, 2009 | Author: Bellini | Filed under: Notícias | Tags: catálogo, i/legítimo, MIS | Link | No Comments »
Entro na exposição de Susana Bastos, Rodrigo Borges, Juliana Freire e Roberto Bellini e logo me lembro daquela enciclopédia chinesa, descrita por Jorge Luis Borges. Nela, os animais se dividem em: pertencentes ao imperador; embalsamados; domesticados; leitões; sereias; fabulosos; cães em liberdade; incluídos na presente classificação; que se agitam como loucos; inumeráveis; desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; etcetera; que acabam de quebrar a bilha; que de longe parecem moscas.
O que nos desconcerta na enciclopédia borgeana é o fato de que, ali, os seres parecem totalmente solitários, sem que seja possível estabelecer qualquer relação entre eles. Diferentemente, poderíamos pensar que há sim conexões infinitas, ligações invisíveis, que, contudo, ainda não foram abrigadas pelo pensamento (mas que podem vir a ser).
O que dizer, então, destes corpos desmembrados, expostos, abandonados em sua solidão de pedra, de ar, de fogo, de bronze, de plástico, de plasma? Poderíamos não incomodá-los, deixá-los ali, em sua absoluta irredutibilidade, em sua quietude que os tornam nada mais e nada menos do que eles são. Mas, desde o início, estes corpos surgem de um diálogo, que não se constitui de palavras, de argumentos, mas da exposição e do contato entre idéias, afetos, objetos e imagens. Um diálogo que é, antes, uma erótica, porque feito de sensações: do peso e da leveza, da fugacidade e da lentidão, dos traços e de sua ausência. O erotismo é o que nos faz irredutivelmente sós, mas, ao mesmo tempo, irresistivelmente fissurados pelo outro, desejantes de nos transformar em outra coisa que não nós mesmos.
No espaço desta exposição transitamos entre a solidão dos corpos desmembrados, que se expõem naquilo que são, e o seu erotismo, que os fazem se metamorfosear naquilo que desejam, naquilo que podem ser. Entre o que as coisas são e a sua possibilidade, poderia, quem sabe, surgir algo como um pensamento. Eis, assim, minha própria classificação do mundo com o qual me deparo:
a) Os seres de ar.
b) Os lugares quaisquer.
c) Os nenhuns.
d) Os fantasmas que se movem como loucos.
e) A lentidão. A casa.
f) O som da água.
g) A cidade por um fio.
h) Helicópteros que, de longe, parecem moscas.
i) Os seres que gostam de se cobrir de casulos coloridos.
j) Os textos que gostam de se cobrir de texturas.
k) As texturas que sussurram.
l) Todos os objetos passíveis de caber no mundo.
m) O corrimão de bronze que lembra.
n) As amarelinhas que esquecem.
o) A proliferação dos objetos em outros.
p) O silêncio dos desenhos que fazem dormir as pedras.
q) As pernas bêbadas que tinem.
r) Os que fazem propostas.
*texto originalmente produzido para o catálogo da exposição coletiva Resposta, relaizada no Palácio das Artes em Julho de 2008.
André Brasil é Professor da PUC Minas, com mestrado na UFMG e ponte rodoviária para o doutorado na UFRJ. Desenvolve, atualmente, parte da pesquisa na Universidade Paris VIII. Foi curador da MostraVídeo do Itaú Cultural, em Belo Horizonte. Participa da comissão de programação do Videobrasil. Gosta de criar ensaios sobre (e com) as imagens.
Original link: http://www.resposta2008.com/texto.html
Posted: January 6th, 2009 | Author: Bellini | Filed under: Textos | Tags: andré brasil, catálogo, resposta | Link | No Comments »
I
- A resposta é o avesso da pergunta?
- Acho que não. A resposta é uma nova pergunta. Ela é o que permite à pergunta sair de si mesma e se tornar outra pergunta.
- O pensamento deseja a pergunta.
- A resposta é um prazer momentâneo, que não esgota esse desejo. Ela é uma fissura do pensamento.
- Em uma conversa perguntas vêm travestidas de respostas e respostas logo se tornam perguntas.
- Uma conversa cria menos discursos do que espaços comuns.
II
- Como conversar sem as palavras?
- Ela é uma conversa tão precisa, tão clara, que bastaria mostrar uma imagem, um objeto, e a resposta seria outro objeto, outra imagem. Nenhuma palavra, nenhuma interpretação, nenhum mal entendido. Apenas o que é, o que se expõe.
- Mas, um objeto e uma imagem são sempre já outra coisa.
- Sempre uma possibilidade.
III
- Como um objeto pode responder ao outro?
- Não são argumentos, como no caso das palavras.
- Claro. Mas, então, o quê?
- O contato. Um objeto se expõe ao outro. Essa exposição é, desde o início, uma relação.
- Na verdade, os objetos não existem antes dessa relação.
- O que se pergunta e se responde aqui?
IV
- As obras são corpos desmembrados, elas parecem ter vida própria: seres de ar, fantasmas feitos de som, pernas sem dorso…
- … escadas fora dos degraus…
- …teias coloridas que embrulham os objetos.
- O horizonte, a pedra, o fogo.
- “(Só se pode comparar a andadura do fogo à dos animais: é preciso que desocupe este lugar para ocupar aquele outro; caminha a um só tempo como ameba e como girafa, o pescoço à frente, os pés rampantes)…
Depois, ao passo que as massas metodicamente contaminadas se aniquilam, os gases liberados vão-se transformando numa só rampa de borboletas.” (Francis Ponge)
V
- Expostas umas às outras, as obras criam menos um diálogo do que uma erótica.
*texto originalmente produzido para o site da exposição coletiva Resposta, relaizada no Palácio das Artes em Julho de 2008.
André Brasil é Professor da PUC Minas, com mestrado na UFMG e ponte rodoviária para o doutorado na UFRJ. Desenvolve, atualmente, parte da pesquisa na Universidade Paris VIII. Foi curador da MostraVídeo do Itaú Cultural, em Belo Horizonte. Participa da comissão de programação do Videobrasil. Gosta de criar ensaios sobre (e com) as imagens.
Original link: http://www.resposta2008.com/
Posted: January 6th, 2009 | Author: Bellini | Filed under: Textos | Tags: andré brasil, catálogo, resposta | Link | No Comments »